Introdução: O livro de Jó
trata, de forma profunda e realista, do sofrimento do justo. Após perder bens,
filhos e saúde, Jó ainda enfrenta um tipo de dor frequentemente negligenciado:
a dor causada por palavras mal aplicadas. Seus amigos, que vieram com a
intenção de consolar Jó.2.11, tornam-se, ao longo dos discursos, instrumentos
de aflição espiritual. Jó os define com precisão: “consoladores molestos” —
pessoas que falam muito, mas ajudam pouco; que argumentam bem, mas amam mal.
Este
texto é extremamente pedagógico para a igreja, especialmente em cultos de
ensino, pois nos orienta sobre como não agir diante do sofrimento alheio
e qual deve ser o verdadeiro padrão bíblico de consolação.
1.
QUANDO A CONSOLAÇÃO É BASEADA EM SUPOSIÇÕES E NÃO NA VERDADE
Jó
16.2; Jó 4.7–8; Jó 8.3–6
Os
amigos de Jó partem de uma teologia simplista: sofrimento é sempre consequência
direta de pecado oculto. Elifaz, Bildade e Zofar falam a partir de suposições,
não de revelação divina. Em vez de aliviar, suas palavras ferem.
a)
Jó.4.7–8
– “Lembra-te agora: qual é o inocente que jamais pereceu?”
b) Jó 8.3–6 –
Bildade associa a dor de Jó a uma suposta injustiça.
c)
Pv.18.13
– “Responder antes de ouvir é estultícia e vergonha.”
d) Jo.9.1–3 – Jesus
corrige a teologia que liga automaticamente sofrimento a pecado.
e)
Consolar
sem discernimento bíblico transforma palavras em acusação. Onde falta verdade
equilibrada, sobra opressão espiritual.
2.
QUANDO HÁ MUITAS PALAVRAS, MAS FALTA MISERICÓRDIA
Jó
16.3; Jó 6.24–25
Os
discursos dos amigos são longos, técnicos e frios. Falam muito, mas não curam.
Jó reconhece que palavras corretas, quando proferidas sem amor, tornam-se
pesadas e inúteis.
a)
Jó
16.3 – “Não terão fim essas palavras de vento?”
b) Jó 6.24–25 –
“Ensinai-me, e eu me calarei… quão fortes são as palavras da boa razão!”
c)
Pv
27.6 – “Leais são as feridas feitas pelo que ama.”
d) 1Co 13.1 –
Palavras sem amor não edificam.
e)
A
verdadeira consolação não depende da quantidade de palavras, mas da qualidade
espiritual delas. Misericórdia deve preceder qualquer exortação.
3.
QUANDO O SOFREDOR É JULGADO EM VEZ DE SER ACOLHIDO JÓ.16.4; 13.3; 19.2
Jó
declara que, se estivesse no lugar deles, agiria de forma diferente. Seus
amigos não se colocam em sua dor; preferem julgá-lo. Julgar o aflito é
intensificar seu sofrimento.
a)
Jó
16.4 – “Eu também poderia falar como vós falais…”
b) Jó 19.2 – “Até
quando entristecereis a minha alma?”
c)
Rm
14.4 – “Quem és tu que julgas o servo alheio?”
d) Tg 2.13 – “O
juízo será sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia.”
e)
Quem
julga o sofrimento alheio assume um papel que pertence exclusivamente a Deus.
4.
O VERDADEIRO CONSOLADOR VEM DE DEUS, NÃO DOS HOMENS JÓ 16.19–21
Apesar
da decepção com os amigos, Jó eleva seus olhos ao céu. Ele reconhece que sua
defesa e seu consolo não vêm da terra, mas de Deus.
a)
Jó
16.19 – “Eis que também agora a minha testemunha está no céu.”
b) Sl 34.19 –
“Muitas são as aflições do justo, mas o Senhor o livra de todas.”
c)
Sl
46.1 “Deus é o nosso refúgio e fortaleza.”
d) IICo.1.3,4 Deus
é o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação.
e)
Quando
a consolação humana falha, a divina jamais falha. Deus consola de forma
perfeita, justa e compassiva.
5.
A LIÇÃO PARA A IGREJA: CONSOLAR COMO CRISTO CONSOLA JO.11.33–35, RM.12.15
Jesus
é o modelo supremo de consolação. Diante da dor, Ele não começa com explicações
teológicas, mas com lágrimas. A igreja é chamada a refletir esse mesmo
espírito.
a)
Jo.11.35
“Jesus chorou.”
b) Rm.12.15 “Chorai
com os que choram.”
c)
Gl
6.2 “Levai as cargas uns dos outros.”
d) Cl 3.12
“Revesti-vos de entranhas de misericórdia.” Consolar como Cristo é sofrer
junto, amar primeiro e falar depois.
Conclusão: Os amigos de Jó
começaram bem, mas terminaram mal. Sentaram-se com ele em silêncio (Jó 2.13),
mas erraram quando abriram a boca sem graça, sem misericórdia e sem
discernimento. O texto nos ensina que nem todo discurso religioso consola e que
palavras sem compaixão podem ser mais dolorosas que o próprio sofrimento.
Que
a igreja rejeite o papel de “consoladores molestos” e abrace a vocação de ser
instrumento do consolo de Deus.
“Antes,
sede uns para com os outros benignos, misericordiosos…” EF.4.32.
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